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12/06/2017

O DIA A DIA DA VIOLÊNCIA SEXUAL: ORGANIZAÇÕES TROCAM EXPERIÊNCIAS SOBRE A ROTINA DE QUEM ATENDE CRIANÇAS E JOVENS

O DIA A DIA DA VIOLÊNCIA SEXUAL: ORGANIZAÇÕES TROCAM EXPERIÊNCIAS SOBRE A ROTINA DE QUEM ATENDE CRIANÇAS E JOVENS

“Depois que uma criança estabelece uma relação de confiança com alguém e consegue ajuda para sair de uma situação de abuso sexual, ela percebe que o corpo dela pertence somente a ela”. E foi assim que a presidente da Associação Brasileira de Defesa da Mulher da Infância e da Juventude, Dalila Figueiredo, exemplificou um dos relatos mais comuns para quem convive diariamente com o abuso e a exploração sexual infantil.

Durante sua palestra, Dalila contou sobre alguns casos com os quais teve contato. Como o de meninas e meninos que são levados na garupa de motos para as fronteiras do Brasil para serem explorados sexualmente por estrangeiros. Depois, as crianças são trazidas de volta como se nada tivesse acontecido.

“Temos que pensar que, enquanto rede de profissionais, todos somos responsáveis em proteger essas crianças e adolescentes” adiciona ela.

Assim como Dalila, outros profissionais que atuam diretamente com o tema foram convidados a dividirem suas experiências com diversas organizações que lidam com crianças e adolescentes. A ocasião ocorreu na última reunião da Rede Nossas Crianças (RNC), iniciativa fomentada pela Fundação Abrinq em conjunto com outras instituições, que aconteceu em São Paulo no dia 17 maio. Para os participantes, o momento que antecedia o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes — foi rico em troca de experiências e conhecimento.

Um dos relatos mais impactantes veio de Bruna dos Santos Latrofe, gerente do Serviço de Proteção Social às Crianças e a Adolescentes Vítimas de Violência – Projeto Voz Sem Medo. A gerente conta sobre a realização de uma dinâmica vinculada ao Serviço, na qual as crianças brincavam de escolher os cômodos de uma casa desenhada no chão, explicando por que gostavam ou não de cada cômodo, segundo as experiências que ocorriam naqueles lugares. Segundo ela, durante a dinâmica, muita coisa apareceu: “Tivemos um caso de adolescente abusada aos 9 anos cujo problema só tomamos conhecimento aos 13, por meio desta dinâmica. E o pior é que ela ainda convivia com o agressor até hoje”. A gerente comenta ainda que as consequências psicológicas do abuso ou exploração sexual podem ser irreversíveis e faz um chamado às organizações presentes para que acionem os órgãos competentes imediatamente quando isso ocorre, antes que seja tarde demais e a vítima fique física ou psicologicamente comprometida para sempre.

Francilene Gomes Fernandes, da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) e da Coordenadoria de Proteção Especial (CPSE), confirma a grave realidade com dados oficiais da Secretaria Especial de Direitos Humanos, que mostram que, em 2016, o Disque 100 recebeu mais de 17 mil denúncias de violência sexual, principalmente abuso. “O crescimento do abuso na faixa de 0 a 5 anos tem sido significativo, principalmente no próprio ambiente familiar”.

Roberto Maty, representante da Ação Social Padre Paschoal Bianco da Paróquia Nossa Senhora das Graças, uma das organizações da RNC presentes no evento, comenta que o potencial de atividades artísticas, educacionais ou de arteterapia voltadas para a identificação de crianças que sofrem abuso ou exploração sexual de forma velada é muito grande: “O abuso tem vindo à tona de forma avassaladora e os professores precisam ter subsídios para saber como lidar com isso” pontua ele.

Para marcar Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes mais de 60 organizações da RNC programaram ações relacionadas ao tema, tais como: apresentações culturais, passeatas, caminhadas, palestras para pais e funcionários, roda de diálogos com a comunidade, entre outras. As organizações presentes no evento receberam ainda mais de 19.000 marcadores de páginas temáticos com dados, informações e canais de denúncia para que pudessem complementar as ações junto a seus públicos.