Se alimentar bem envolve nutrientes, convivência, memória e cultura. A criança observa o que os adultos colocam no prato, como organizam horários e como se comportam em relação à alimentação. Esse exemplo molda escolhas ao longo do tempo. Quando a rotina inclui ultraprocessados, excesso de açúcar e refeições feitas às pressas, o padrão tende a se repetir. O mesmo ocorre no sentido oposto, quando há frutas, verduras, arroz, feijão, fontes de proteína e água como bebida principal, mas de forma positiva pois o repertório alimentar se amplia e ganha estabilidade.
Os efeitos desse cotidiano aparecem nos dados do Observatório da Criança. Em 2025, 5,4 por cento das crianças de até 5 anos vivem com obesidade no país, o que representa mais de 7,7 milhões. Entre 5 e 10 anos, o índice chega a 9,4 por cento. Ao mesmo tempo, mais de 190 milhões de crianças de até 10 anos enfrentam insegurança alimentar. O contraste apresenta um cenário de excesso e carência convivendo lado a lado e reforça a necessidade de informação, planejamento e compromisso coletivo.
Nesse contexto, a alimentação tradicional brasileira oferece um ponto de partida. O arroz com feijão reúne proteínas, ferro, fibras e energia. Está presente em diferentes regiões e atravessa gerações. Valorizar a cultura alimentar brasileira significa reconhecer saberes transmitidos nas famílias, respeitar ingredientes regionais e manter práticas que organizam o prato de forma estruturada. Ao preservar esse padrão no cotidiano, reduz-se a presença de produtos industrializados e fortalece-se uma alimentação alinhada à realidade social e econômica do país.
Na adolescência, novos fatores influenciam o comportamento alimentar. A busca por pertencimento, a influência das redes sociais e a pressão estética interferem nas escolhas. Pular refeições, seguir dietas restritivas sem orientação e substituir comida por lanches rápidos passam a fazer parte da rotina. As consequências aparecem em quadros de anemia, deficiência de vitaminas, ganho de peso, alterações metabólicas e sofrimento emocional.
Promover alimentação adequada envolve família, escola, serviços de saúde e políticas públicas. O ambiente precisa facilitar escolhas possíveis dentro da realidade de cada família. Informação sem prática não sustenta mudança. Exemplo diário, oferta regular de alimentos naturais e conversa aberta constroem consistência.
O que vai ao prato nos primeiros anos fica na memória
Os primeiros mil dias de vida, da gestação aos dois anos, influenciam o desenvolvimento físico e cognitivo. O aleitamento materno exclusivo até os seis meses e mantido até dois anos ou mais, conforme orientação da Organização Mundial da Saúde, reduz infecções e contribui para formação do paladar.
A introdução alimentar, a partir dos seis meses, deve priorizar alimentos naturais e minimamente processados. A exposição repetida a legumes, verduras e frutas aumenta a aceitação ao longo do tempo. Pesquisas publicadas pelo Ministério da Saúde sobre comportamento alimentar infantil, indicam que a criança pode precisar experimentar o mesmo alimento de oito a quinze vezes até incluí-lo na rotina.
A participação da criança nas escolhas e no preparo também favorece adesão. Ir à feira, lavar folhas, montar o prato e sentar-se à mesa com a família fortalecem vínculo e autonomia. Comer deixa de ser resposta automática à fome e passa a integrar a dinâmica da casa.
Na escola, a alimentação também educa, no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNEA) estabelece diretrizes para oferta de alimentos in natura e compra da agricultura familiar. Milhões de estudantes recebem refeições diariamente. Esse contato frequente amplia o repertório alimentar e contribui para segurança nutricional.
Crescer também muda a forma de comer
A adolescência envolve crescimento acelerado e mudanças hormonais. A demanda por ferro, cálcio, proteínas e energia aumenta. Quando a alimentação não acompanha essa fase, surgem impactos na concentração, no desempenho escolar e na disposição para atividades físicas.
O consumo frequente de bebidas açucaradas, salgadinhos e refeições prontas está associado ao aumento de doenças crônicas ao longo da vida, como diabetes tipo 2 e hipertensão. Incentivar refeições regulares, manter o café da manhã e reduzir o uso de telas durante as refeições são medidas viáveis dentro da rotina familiar.
A relação com o corpo também exige atenção. Comentários sobre peso e comparação entre colegas podem desencadear restrição alimentar, compulsão ou isolamento. Crianças expostas a frutas, verduras, arroz e feijão tendem a manter esses alimentos na vida adulta. Adolescentes que compreendem a função dos nutrientes realizam escolhas com maior consciência fora de casa. O reflexo surge na redução de obesidade, no controle de deficiências nutricionais e na prevenção de doenças crônicas.
Alimentação envolve rotina. Planejar compras, organizar horários e priorizar comida preparada em casa são medidas possíveis. O que se aprende na infância e na adolescência acompanha a vida inteira. Cuidar da alimentação nesse período amplia perspectivas de saúde e autonomia.