Em 17 de outubro de 1987, 100 mil pessoas se reuniram na praça do Trocadéro, em Paris, na França, para homenagear as vítimas da fome, da violência e da ignorância e protestar contra a extrema pobreza. O chamado partiu do padre Joseph Wresinski, que nasceu em uma família em extrema pobreza e dedicou a vida a trabalhar ao lado de quem vivia nessa condição. Em 1992, a ONU transformou a data no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.
Quase quatro décadas depois, o Brasil chega a 17 de outubro com uma pergunta que cabe em qualquer sala de aula: quantas das crianças no território brasileiro vivem em casas onde a renda não chega a meio salário mínimo por pessoa?
Quantas crianças vivem com até meio salário mínimo por pessoa?
São 16.509.299 crianças e adolescentes de até 14 anos, ou 39,8% dessa população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, disponíveis no Observatório da Criança e do Adolescente, da Fundação Abrinq. Quase 4 em cada 10.
Dentro desse grupo, 6.008.023 (14,5%) vivem com até um quarto de salário mínimo por pessoa. Os outros 10,5 milhões estão na faixa entre um quarto e meio salário mínimo.
A conta é simples: soma-se tudo o que a família recebe e divide-se pelo número de moradores. Numa casa com quatro pessoas, a renda total é dividida por quatro.
O que a pobreza muda na vida de uma criança?
No prato
Ainda de acordo com o IBGE, em 2024, 3,3% das crianças de 0 a 4 anos e 3,8% das de 5 a 17 anos viviam em domicílios com insegurança alimentar grave. Entre pessoas com 65 anos ou mais, o índice era de 2,3%. Nessa condição, a comida diminui em quantidade e qualidade, inclusive para quem tem menos de 18 anos.
A renda pesa nessa conta. No mesmo ano, dois em cada três lares (66,1%) com renda per capita de até um salário mínimo estavam em algum grau de insegurança alimentar. O cenário melhorou em relação ao ano anterior, com a proporção de lares em insegurança alimentar grave caindo de 4,1% para 3,2% entre 2023 e 2024. Ainda assim, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social estima que 1,8 milhão de crianças e adolescentes seguiam em domicílios com insegurança alimentar grave em 2024.
Na primeira infância
O Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade Harvard chama de estresse tóxico a ativação intensa e prolongada do sistema de resposta ao estresse do corpo, sem a proteção de adultos de apoio. A pobreza extrema, a negligência, o abuso e a depressão materna grave estão entre as causas listadas pelo centro. Quando isso acontece nos primeiros anos, a arquitetura do cérebro em formação pode ser enfraquecida, com consequências de longo prazo para a aprendizagem, o comportamento e a saúde física e mental.
Nem toda criança que vive na pobreza passa por isso. A pesquisa mostra que a presença de adultos que acolhem e protegem funciona como uma “barreira”, e é por essa porta que entram a família apoiada, a creche, o posto de saúde e as organizações que atendem crianças no território.
Quem pode mudar esse cenário?
Quase tudo de que uma criança precisa no dia a dia vem de serviços locais: creche, escola, posto de saúde, assistência social. Em grande parte, eles ficam sob responsabilidade das prefeituras e dependem do que está no orçamento da cidade.
É nesse ponto que a Fundação Abrinq atua. Por meio do Programa Prefeitas e Prefeitos Amigos da Criança, a organização acompanha os municípios no compromisso de colocar a infância no orçamento e nas decisões. Por isso, no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, vale levar uma pergunta ao seu prefeito, ao seu vereador e a quem pede o seu voto: quanto do orçamento da cidade vai para crianças e adolescentes?
E vale também apoiar quem faz esse trabalho todos os dias. Considere fazer uma doação e ajude a transformar vidas de quem mais precisa. Clique aqui.