O acesso ao livro e à literatura ainda é marcado pelas desigualdades sociais e territoriais no Brasil. Em comunidades onde bibliotecas, livrarias e outros espaços de acesso à leitura são escassos, a presença de um acervo próximo, mediadores preparados e atividades regulares pode fazer parte da construção de uma relação mais cotidiana entre crianças, adolescentes e os livros. É nesse contexto que a Fundação Abrinq apoia, em 2026, a formação e o fortalecimento de bibliotecas comunitárias por meio do Projeto Mudando a História.
A iniciativa contempla cinco bibliotecas comunitárias localizadas em territórios de São Paulo, Minas Gerais e Bahia, que receberam recursos para ampliar suas condições de atendimento e desenvolver atividades de mediação de leitura com crianças e adolescentes. Até o momento, as ações realizadas pelas bibliotecas já alcançaram mais de 350 participantes, número que deverá crescer ao longo dos próximos meses.
A atuação parte de uma compreensão de que formar leitores envolve criar oportunidades para que crianças e adolescentes tenham contato frequente com diferentes livros, autores, gêneros e formas de expressão, em espaços nos quais possam conversar sobre o que leem, compartilhar interpretações e relacionar a literatura às próprias experiências.
O cenário educacional reforça a importância desse trabalho. Dados mais recentes do Ministério da Educação e do Inep mostram que 66% das crianças brasileiras estavam alfabetizadas na idade adequada em 2025, resultado que superou a meta nacional de 64% estabelecida para o ano. O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada prevê metas progressivas para os próximos anos, chegando a mais de 80% em 2030.
A alfabetização representa uma etapa fundamental da trajetória educacional, mas a formação leitora se desenvolve ao longo de todo o processo de aprendizagem e envolve o contato contínuo com livros, literatura e diferentes formas de expressão cultural. Nesse sentido, o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) 2026–2036, elaborado pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério da Educação, estabelece diretrizes para ampliar o acesso à leitura, fortalecer bibliotecas e formar mediadores, reconhecendo a leitura como parte do desenvolvimento educacional, social e cultural do país.
O desafio também aparece nos hábitos da população: a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, mostrou que 53% dos brasileiros com cinco anos ou mais eram não leitores, enquanto 47% eram leitores, considerando como leitor quem havia lido ao menos parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Foi a primeira vez, desde o início da série histórica, em 2007, que o percentual de não leitores superou o de leitores.
Acervo, formação e atividades aproximam os livros das comunidades
Para fortalecer as bibliotecas participantes, a Fundação Abrinq destinou a cada unidade 75 livros de literatura infantojuvenil, um retroprojetor e um ventilador, totalizando mais de 375 livros doados. As bibliotecas também recebem apoio financeiro para desenvolver atividades com crianças e adolescentes e seus profissionais participam de uma trilha formativa voltada ao aprimoramento das práticas realizadas nos territórios.
As ações já desenvolvidas mostram diferentes caminhos para aproximar a literatura do cotidiano das comunidades. Na Biblioteca Comunitária Sergio Farias, em Salvador – BA, a estrutura está sendo reformada, com aquisição de estantes, ampliação do acervo e atualização da identidade visual. Enquanto as adequações são concluídas, a biblioteca também promove rodas de leitura e conversa em escolas públicas, com atividades relacionadas ao 'Julho das Pretas' e à valorização da literatura negra, da identidade, da memória e da cultura afro-brasileira.
Na Biblioteca Comunitária Santo Dias Ubuntu, em São Paulo - SP, os encontros aproximam literatura e preparação para o vestibular. Professores e estudantes discutem obras de leitura obrigatória da FUVEST, em atividades que abordam contexto histórico, características literárias, personagens, enredo e temas das obras. Em julho, o grupo trabalhou com Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo.
Em Piracaia - SP, o trabalho do Piracaia na Leitura tem mobilizado voluntários para conhecer o acervo recebido, realizar mediações e levar os livros para diferentes espaços de convivência. Os mediadores têm compartilhado as obras com filhos, pacientes e pessoas próximas e também articulam uma parceria com a Escola Estadual Elza Peçanha de Moraes para ampliar as ações de leitura no segundo semestre.
Na Borrachalioteca de Sabará - MG, a programação reúne literatura, poesia, música, cordel, xilogravura, quadrinhos e atividades de criação. Escritores como Yasmin Umbelino e Neusa Sorrenti participaram de encontros com estudantes e leitores, enquanto o poeta e cantor Silas da Fonseca compartilhou sua trajetória. As mediações também deram origem a oficinas de xilogravura, produção de chaveiros e marcadores de página, criação de tirinhas e atividades a partir de obras como O Menino Nito, Pulga Atrás da Orelha e Fevereiro.
Em São Bernardo do Campo - SP, a Biblioteca Comunitária Ilê Ìmò Francisco Solano Trindade desenvolve mediações com crianças e adolescentes em diferentes espaços do território, incluindo praça, condomínio e atividades de férias. As ações trabalham literatura afro-brasileira e contos indígenas e também articulam leitura, brincadeiras e produção artística. Em uma das atividades, a trajetória e a obra de Francisco Solano Trindade foram apresentadas aos jovens, que produziram um painel inspirado no poema O Trem.
Bibliotecas comunitárias fortalecem o direito à leitura
A formação das bibliotecas comunitárias apoiadas pela Fundação Abrinq combina investimento em estrutura, acesso a acervos, formação profissional e criação de experiências de leitura próximas da realidade de cada território. Essa combinação permite que os espaços sejam utilizados como pontos de encontro, convivência, aprendizagem e participação cultural.
Para a Fundação Abrinq, apoiar essas iniciativas significa contribuir para que crianças e adolescentes tenham acesso a livros e possam construir, desde cedo, uma relação de pertencimento com a leitura. Quando o acervo dialoga com a diversidade cultural e os mediadores criam espaço para a participação dos leitores, o livro deixa de ocupar apenas uma estante e passa a integrar as experiências, as conversas e as descobertas de quem vive na comunidade.
O trabalho é realizado com o apoio de parceiros e recursos destinados à promoção dos direitos de crianças e adolescentes. Ao investir na formação e no fortalecimento das bibliotecas comunitárias, a Fundação Abrinq amplia as possibilidades de acesso à literatura nos territórios e contribui para que mais crianças e adolescentes encontrem nos livros instrumentos para compreender o mundo, ampliar repertórios e participar da vida em comunidade.
Para saber mais sobre o Projeto Mudando a História e apoiar as ações da Fundação Abrinq, acesse os canais institucionais da organização.