Setembro Amarelo amplia, todos os anos, a conversa sobre saúde mental e prevenção do suicídio. Quando o assunto envolve crianças e adolescentes, porém, essa discussão precisa ultrapassar o calendário da campanha. O cuidado começa antes de uma situação de sofrimento se tornar evidente e está presente em atitudes que fazem parte da rotina: ouvir, observar, acolher, respeitar sentimentos e criar espaços nos quais crianças e adolescentes possam se expressar.
Na infância, nem sempre é possível explicar com palavras o que está acontecendo. Uma criança pode não dizer que está triste, ansiosa, insegura ou com medo, mas demonstrar o que sente por meio de mudanças de comportamento, dificuldades de aprendizagem, irritabilidade, isolamento ou alterações na rotina. Na adolescência, outras formas de sofrimento também podem aparecer nas relações familiares e sociais, na escola e na maneira como o jovem passa a se relacionar com atividades que antes faziam parte de seu cotidiano.
Os dados ajudam a dimensionar a importância de prestar atenção à saúde mental na adolescência. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 28,9% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram ter se sentido tristes na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa. Em 2019, esse percentual era de 31,4%, uma redução de 2,5 pontos percentuais no período.
Promover saúde mental, portanto, não significa apenas responder quando o sofrimento já está instalado. A prevenção também passa pela construção de relações de confiança, pela convivência, pelo direito de participar e pela existência de adultos capazes de perceber mudanças e oferecer apoio.
“Não esperem que a criança consiga explicar sozinha tudo aquilo que está sentindo”, afirma Aline Carolina Pahl Stammerjohann, psicopedagoga do Instituto Conforme, de Joinville - SC.
A organização integra o Programa Nossas Crianças, da Fundação Abrinq, com o Projeto Caminho Inclusivo, desenvolvido no eixo de Promoção da Saúde Mental. A iniciativa acompanha 272 crianças de 6 a 12 anos e suas famílias e trabalha questões relacionadas à aprendizagem, atenção, socialização e autoestima. A experiência do projeto mostra como o cuidado com a saúde mental pode estar associado ao acompanhamento do desenvolvimento infantil e à criação de espaços em que a criança possa aprender, brincar e se expressar sem medo de errar.
O que a criança ainda não consegue dizer
Para Aline, cuidar da saúde mental na infância significa olhar para a criança de forma integral. Isso envolve considerar não apenas seu desempenho escolar ou seu comportamento, mas também suas emoções, relações, dificuldades e potencialidades. Muitas vezes, ela encontra outras formas de comunicar que alguma coisa não vai bem.
Por isso, a prevenção está relacionada à capacidade dos adultos de observar. Isolamento, tristeza frequente, irritabilidade excessiva, alterações importantes no sono ou na alimentação, perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas, dificuldade intensa de concentração, queda repentina no rendimento escolar, crises frequentes, medo excessivo e regressões no desenvolvimento são alguns dos sinais que merecem atenção quando representam uma mudança persistente em relação ao comportamento habitual.
O primeiro passo, segundo a psicopedagoga, não é punir ou rotular, mas tentar compreender. Uma criança que apresenta dificuldade para realizar determinada tarefa ou que reage de uma maneira considerada inadequada pode estar expressando uma necessidade que ainda não foi identificada.
Essa perspectiva também modifica a maneira como os adultos podem lidar com a aprendizagem. Dificuldades escolares não devem ser automaticamente interpretadas como falta de esforço ou desinteresse. A observação do comportamento, das relações e das condições em que a criança aprende pode revelar necessidades que exigem acompanhamento.
No Caminho Inclusivo, o atendimento psicopedagógico e psicológico permite observar essas questões e construir estratégias de acordo com as características de cada criança. Atividades lúdicas, jogos, brincadeiras e materiais pedagógicos também podem contribuir para esse processo, porque o brincar é uma das formas pelas quais a criança se comunica e manifesta aspectos emocionais, sociais e cognitivos.
Pequenas conquistas passam a ter significado nesse acompanhamento, reconhecer letras, escrever o próprio nome, permanecer mais tempo em uma atividade, esperar a própria vez, aceitar uma mudança na rotina ou conseguir expressar uma emoção podem representar avanços importantes para uma criança. Valorizar essas conquistas contribui para que ela desenvolva confiança em suas próprias capacidades.
Escutar sem transformar sentimento em problema
A escuta é parte desse processo, quando encontra um adulto disposto a ouvir, a criança percebe que aquilo que sente tem valor e que não precisa enfrentar suas dificuldades sozinha. Para Aline, esse tipo de relação contribui para a confiança, a autoestima e o sentimento de pertencimento.
Criar um espaço seguro, no entanto, não significa apenas perguntar o que aconteceu, é preciso estar disponível para ouvir sem julgamento e utilizar uma linguagem adequada à idade. Algumas crianças podem falar diretamente sobre o que sentem, outras podem recorrer ao desenho, ao brincar, a uma atividade ou ao próprio comportamento para demonstrar o que estão vivendo.
É nesse ponto que algumas respostas comuns dos adultos podem dificultar o diálogo. Frases como “isso não é nada”, “engole o choro” ou comparações com experiências vividas pelos próprios adultos podem fazer com que a criança compreenda que seus sentimentos não devem ser compartilhados.
O adulto também precisa evitar julgamentos, ameaças, gritos e cobranças excessivas. Antes de tentar corrigir um comportamento, é importante procurar entender o que está por trás dele. Essa mudança de perspectiva não significa deixar de estabelecer limites, mas reconhecer que o comportamento também pode ser uma forma de comunicação.
A prevenção, nesse sentido, não está restrita ao atendimento profissional. Ela também acontece dentro de casa, na escola e nos espaços de convivência. Conversar, brincar, estabelecer uma rotina, acompanhar a vida escolar, respeitar o tempo da criança, reconhecer suas conquistas e mostrar que ela pode procurar um adulto quando estiver enfrentando uma dificuldade são atitudes que fazem parte desse cuidado.
A família também precisa de apoio
Quando uma criança enfrenta dificuldades relacionadas à aprendizagem ou ao desenvolvimento, a situação também pode afetar os adultos responsáveis por ela. O diagnóstico, uma suspeita ou a percepção de que algo não está acontecendo como esperado podem provocar preocupação, medo, frustração e sensação de impotência.
Por isso, cuidar da saúde mental da criança também envolve cuidar de quem está ao seu redor. No trabalho desenvolvido pela organização, o acolhimento dos responsáveis faz parte desse processo. A equipe busca compreender o contexto familiar, ouvir as preocupações e orientar sobre as necessidades observadas e as estratégias que podem ser utilizadas no cotidiano.
A articulação com a escola e com outros profissionais também é importante. Família, escola e serviços de atendimento precisam compartilhar informações e buscar caminhos que permitam compreender a criança de maneira integral.
Para famílias em situação de vulnerabilidade social, esse percurso pode ser ainda mais difícil. O acesso a profissionais especializados, avaliações e documentos necessários para garantir determinados direitos pode envolver espera e obstáculos. Nesse contexto, organizações da sociedade civil podem contribuir para aproximar famílias da rede de proteção e dos serviços disponíveis.
Pedir ajuda, nesses casos, não deve ser entendido como fracasso da família. Quando os sinais persistem, interferem na rotina, na aprendizagem ou nas relações, ou quando os adultos percebem que não conseguem conduzir a situação sozinhos, buscar acompanhamento profissional é uma forma de cuidado.
O cuidado com a saúde mental que continua depois de setembro
No Instituto Conforme, o Projeto Caminho Inclusivo mostra como a promoção da saúde mental pode fazer parte do acompanhamento cotidiano da infância, desde as questões relacionadas à aprendizagem até as relações familiares e a convivência.
“Saúde mental na infância não deve ser lembrada somente durante este mês. Este cuidado deve ser construído dia a dia, assim como cuidamos da alimentação, higiene, sono e aprendizagem”, afirma Aline.
A fala resume uma questão importante para além do Setembro Amarelo: promover saúde mental não significa esperar que uma situação de sofrimento apareça para então agir. O cuidado também está na escuta, na observação, na convivência e na construção de relações em que crianças e adolescentes saibam que podem procurar ajuda.
É nesse cotidiano que a prevenção ganha espaço, ouvir sem julgar, respeitar sentimentos, perceber mudanças de comportamento, acompanhar a vida escolar e procurar orientação profissional quando necessário são atitudes que podem ajudar a identificar dificuldades e oferecer suporte no momento adequado.
Setembro pode ampliar a conversa, mas o cuidado não termina quando o mês acaba. Para crianças e adolescentes, ter adultos atentos, espaços seguros de convivência e uma rede capaz de acolher suas necessidades é parte de uma proteção que precisa acontecer todos os dias.
A saúde mental também faz parte da proteção de crianças e adolescentes. Conheça o trabalho da Fundação Abrinq, acompanhe seus projetos e programas e ajude a ampliar essas iniciativas. Seja um doador e faça parte dessa rede de proteção.