Entre os dias 27 e 28 de março, a Fundação Abrinq promoveu o encontro de abertura do Projeto Mudando a História 2026, que aconteceu em São Paulo – SP, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, reunindo cerca de 150 pessoas entre adolescentes mediadores de leitura e educadores de 18 instituições, em um momento voltado ao encontro, à aproximação e ao início de uma jornada coletiva.
No início do encontro, o grupo construiu junto um pacto de convivência, combinando regras básicas para o dia a dia, com espaço para escuta e respeito, que passa a orientar todos os encontros ao longo do ano, criando um ambiente em que todos possam se sentir parte, e logo depois a dinâmica “Coisa em Comum” ajudou a aproximar os participantes, incentivando cada um a encontrar pontos em comum com colegas de outras instituições, o que foi abrindo espaço para interação e diminuindo a distância entre realidades diferentes.
A programação seguiu com uma introdução à mediação de leitura, apresentando como será o percurso ao longo do projeto, como acontecem os encontros e qual o papel de cada participante nesse processo, além de uma conversa sobre o direito à leitura e à cultura, trazendo o grupo para o centro da proposta.
Promover o acesso à leitura e a espaços culturais ainda é um desafio para muitos adolescentes, especialmente aqueles que vivem em territórios mais afastados dos espaços culturais da cidade, e quando esse acesso acontece, ele não se limita ao contato com o livro, ele amplia repertórios, fortalece a autonomia, desenvolve a comunicação e ajuda esses jovens a se reconhecerem como parte da cidade e da própria história.
Para Mattheus Adepoju, educador social do Centro para Criança e Adolescente (CCA) Vila São Geraldo, o projeto amplia o acesso e aproxima os adolescentes de espaços que muitas vezes não fazem parte da rotina deles, ele explica que “o projeto fortalece e democratiza o acesso à cultura, a biblioteca, outros espaços culturais, e possibilitar a galera do fundão da zona leste a vir para o centro”, e completa ao falar da leitura como um caminho de expressão, “a possibilidade das crianças e adolescentes também escreverem suas próprias histórias, fazerem seus próprios livros e compartilharem essas informações com outras crianças e adolescentes”.
A experiência de sair do território também marcou os grupos, como conta Késia Borges, educadora do CCA Cristo Rei, ao explicar que muitos adolescentes vivem uma rotina dividida entre escola e CCA enquanto as famílias trabalham, o que faz com que o deslocamento já seja, por si só, uma vivência diferente, e ela resume essa percepção ao dizer que “acho que a experiência de estar no Projeto Mudando a História não é só sobre o conhecimento e a troca que temos aqui hoje, mas é um todo, desde sair do CCA e ver possibilidades”, lembrando de uma situação no metrô em que uma adolescente comentou “nossa, as pessoas são saudáveis”, e ao ser questionada respondeu “porque leem livros no transporte”.
Para Késia, a mediação amplia o olhar dos adolescentes sobre o mundo e sobre si mesmos, “ser mediadora é abrir o imaginário, não só do livro, mas do mundo, não é sobre ler para criança, é sobre o despertar”, e ela acredita que o projeto contribui para que eles se sintam mais seguros e confiantes, “acho que o projeto vai trazer segurança, autoestima, se colocar no mundo como protagonistas”. Alecssandro Costa, educador social do Centro para Juventude (CJ) Lar Meimei, destaca que, em muitos territórios, o acesso à leitura acontece de forma mais restrita ao ambiente escolar, e que o projeto apresenta novas possibilidades ao colocar os adolescentes em contato com diferentes tipos de livros e formas de leitura, “agora vocês vão participar de um projeto em que vão mediar leitura, então vão ler vários tipos de livros”, e ele também chama atenção para o desenvolvimento que acompanha esse processo, “as empresas valorizam jovens que estão atuando no meio de educação e cultura, é importante para o currículo”, além de aspectos práticos como comunicação e interpretação, e reforça o sentido desse percurso ao dizer que “a leitura é o primeiro passo para ocuparem outros espaços culturais”.

No período da tarde, o grupo visitou a Biblioteca Monteiro Lobato, onde participou de uma visita mediada, fez a carteirinha e pôde escolher até dois livros para empréstimo, iniciando uma relação mais direta com o acervo público da cidade e com a possibilidade de circular por diferentes bibliotecas, já que a carteirinha permite acesso a toda a rede municipal, criando também um compromisso com o cuidado e a devolução dos livros.
O projeto também organizou um mapeamento das bibliotecas próximas aos territórios dos participantes, facilitando o acesso e incentivando que eles frequentem esses espaços no dia a dia, próximos de casa ou da escola, o que contribui para que a leitura passe a fazer parte da rotina.
Natália Marques, educadora do Lar São Tiago, destaca a importância desse contato com a leitura a partir da própria experiência, “o espaço de biblioteca pública é diferente de uma biblioteca de escola, você tem muito mais acesso à diversidade de livros”, e observa como o deslocamento amplia a percepção dos adolescentes, lembrando de um comentário feito durante o trajeto, “um deles falou que parecia que a gente estava em outro país”, e reforça o papel do educador nesse processo ao dizer que “é importante vivenciar outros espaços, perceber que a cidade também é deles”, além de destacar o que a leitura provoca, “a gente está vivendo outra vida enquanto lê, isso abre criatividade, perspectiva”.
Entre as escolhas feitas na biblioteca, o adolescente Andrey de Castro, do CJ Lar Meimei, se interessou por livros que fogem do comum, ele escolheu Minha coisa favorita é Monstro, de Emil Ferris, por causa do formato, “todas as páginas são feitas como folha de caderno e conta a história de uma menina que vira um monstro”, e também levou Onde existe amor, Deus aí está, de Liev Tolstói, “é todo desenhado e com histórias criativas”, escolha feita por seu interesse por histórias religiosas. O dia terminou com uma mediação de leitura na Praça Rotary, levando a proposta para fora dos muros e colocando em prática o que começou a ser construído no encontro.
O Projeto Mudando a História tem como foco o protagonismo juvenil por meio da mediação de leitura em espaços da comunidade, envolvendo adolescentes de 11 a 17 anos em atividades de formação, prática, visitas culturais e momentos de acompanhamento com a equipe, criando oportunidades de troca, convivência e ampliação de repertório.
Entre encontros, deslocamentos e descobertas, a leitura se apresenta como um caminho de acesso, expressão e pertencimento, capaz de ampliar horizontes e apoiar o desenvolvimento dos adolescentes em diferentes dimensões da vida.
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