Jogar online faz parte da rotina da infância brasileira. Com 24,5 milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos conectados à internet, de acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, os jogos eletrônicos deixaram de ser uma atividade de nicho para se tornar um dos principais espaços de socialização, aprendizagem e entretenimento dessa geração.
Benefícios e riscos dos jogos online
Jogos eletrônicos desenvolvem raciocínio lógico, resolução de problemas e habilidades sociais. Em formatos colaborativos, estimulam comunicação e trabalho em equipe. Para muitas crianças, são também espaços de pertencimento, onde amizades se formam e identidades se constroem. Esse potencial é legítimo e reconhecido: o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos (Lei nº 14.852/2024) classificou a indústria de games como setor estratégico para a economia e a cultura brasileira.
O problema está no que acompanha esse ecossistema. As mesmas plataformas que oferecem experiências ricas de jogo também expõem crianças a contato com adultos desconhecidos, a conteúdo inadequado para a idade e a sistemas de monetização que exploram mecanismos psicológicos ainda em formação. As chamadas loot boxes, caixas de recompensa pagas cujo conteúdo só é revelado após a compra, replicam a lógica dos jogos de azar e são especialmente eficazes em crianças e adolescentes justamente porque o autocontrole é uma habilidade que se desenvolve ao longo da adolescência, e não uma característica pronta. A Sociedade Brasileira de Pediatria classificou o uso precoce, prolongado e excessivo de jogos online, sem regras claras de segurança, como comportamento aditivo e prejudicial à saúde.
A publicidade nesses ambientes também opera de forma distinta do modelo tradicional. Algoritmos rastreiam comportamentos, cruzam dados e entregam anúncios personalizados para um público que ainda não desenvolveu repertório crítico para identificar quando está sendo persuadido. Isso coloca crianças em uma posição de vulnerabilidade.

Quando o risco se torna crime
Em 2025, um homem foi preso em Holambra - SP após usar plataformas de jogos para aliciar crianças, oferecendo moedas virtuais e itens em troca de imagens íntimas. A denúncia partiu da avó de um menino de 11 anos, que leu as mensagens no celular do neto. O caso demonstra um padrão: ambientes de jogo online, com funcionalidades de chat e troca de mensagens, podem ser usados por adultos para estabelecer contato com crianças, construindo relações de confiança antes de introduzir conteúdo sexual ou pedidos inadequados.
Os relatos de crimes contra crianças e adolescentes registrados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania cresceram 22,6% em 2024, totalizando quase 290 mil registros. O ambiente digital, incluindo os jogos, é parte desse cenário.
O que escapa aos adultos
Um dos desafios mais difíceis de enfrentar é a distância entre o que os responsáveis percebem e o que crianças e adolescentes de fato vivem no ambiente digital. Segundo a pesquisa, enquanto 29% dos jovens relatam já ter passado por situações incômodas ou ofensivas online, apenas 8% dos pais acreditam que isso aconteceu com seus filhos.
Essa lacuna tem raízes compreensíveis. A maioria dos adultos não frequenta os ambientes digitais onde os filhos passam horas do dia. Os jogos online, em particular, têm dinâmicas próprias, comunidades específicas e formas de interação que exigem familiaridade para serem compreendidas. Saber que o filho joga é diferente de saber com quem ele joga, o que troca nessas interações e que tipo de solicitações recebe.
Familiaridade com tecnologia e capacidade de discernir o certo do errado são habilidades distintas. Uma criança pode dominar os controles de um jogo complexo e, ao mesmo tempo, não ter ferramentas para identificar quando um adulto desconhecido está tentando manipulá-la. Essa distinção é importante para que pais e cuidadores não confundam desenvoltura digital com segurança digital.
O que a lei passou a exigir
O Brasil avançou no assunto com a Lei nº 15.211/2025, o ECA Digital, em vigor desde março de 2026. No campo dos jogos, a legislação proíbe expressamente as loot boxes, veda o uso de dados de crianças para fins publicitários e de perfilamento, e torna obrigatória a verificação etária nas plataformas, encerrando a prática de autodeclaração de maioridade. Funcionalidades de interação entre usuários, como chat e troca de conteúdo, passam a depender do consentimento dos responsáveis para crianças e adolescentes.
As sanções para descumprimento são significativas: multas de até R$ 50 milhões e, nos casos mais graves, proibição de operação no país. A Agência Nacional de Proteção de Dados e o Comitê Gestor da Internet no Brasil têm papéis centrais na fiscalização.
Uma responsabilidade compartilhada
Esse debate é, em sua essência, um debate sobre direitos. O direito à proteção, ao desenvolvimento saudável, à privacidade e à participação segura na vida social, que estão definidos pela Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, valem também no ambiente digital.
Famílias precisam de informação e apoio para exercer seu papel de proteção. Escolas precisam falar sobre o tema. O poder público precisa fiscalizar as novas normas com rigor e investir em campanhas de conscientização. E as empresas de tecnologia precisam incorporar a proteção infantil desde a concepção de seus produtos, como obrigação ética e legal, e não como resposta tardia a pressões regulatórias.