“Sou burro, minha cabeça não funciona.” A frase era dita por um adolescente atendido em Indaiatuba - SP nos momentos em que o sofrimento ficava mais intenso, quando ele chegava a bater a cabeça na parede. Encaminhado pela escola por dificuldades de aprendizagem, de relacionamento e de autorregulação, ele também sofria bullying, e a frase revelava a imagem que tinha de si mesmo.
A história, contada por Adriele Linder, coordenadora psicossocial do Educandário Deus e a Natureza, mostra que o sofrimento de um adolescente raramente vem de um único lugar. Naquele caso, aprendizagem, bullying, relações e autoimagem estavam ligados e, por isso, a resposta também precisou envolver mais de um espaço. No Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio, situações como essa ajudam a compreender como funciona, na prática, o cuidado em rede com crianças e adolescentes que convivem com sofrimento emocional.
Conflitos familiares, sofrimento psíquico, situações de violência, dificuldades de convivência e questões relacionadas à aprendizagem podem se misturar e afetar a forma como crianças e adolescentes se percebem, se relacionam e enfrentam as situações do cotidiano. Quando isso acontece, a resposta dificilmente cabe em um único atendimento ou pode ser atribuída exclusivamente à família.
Parte desse cuidado passa pela capacidade de diferentes adultos e serviços compreenderem o que está acontecendo e dividirem responsabilidades. Escola, família, organizações da sociedade civil e serviços de saúde e assistência social podem ocupar lugares diferentes nesse processo, mas precisam conseguir dialogar para que a criança ou o adolescente não fique sozinho diante de uma situação que exige acompanhamento.
Para adolescentes neurodivergentes, essa articulação pode ser ainda mais necessária diante de situações de preconceito, dificuldades de acessibilidade e da ausência ou insuficiência de serviços especializados. Quando essas barreiras se somam a outras situações de vulnerabilidade, o acesso ao cuidado pode se tornar ainda mais difícil.
No caso acompanhado em Indaiatuba - SP, o adolescente participa há alguns ciclos do Projeto Espaço Florescer e conta com a participação ativa da mãe. Em articulação com a rede, também foi possível garantir um acompanhamento pedagógico voltado às suas dificuldades de aprendizagem, ampliando as possibilidades de acompanhamento diante das necessidades apresentadas.
A experiência mostra a importância de considerar diferentes aspectos da vida de uma criança ou adolescente antes de definir como uma situação deve ser acompanhada. Uma dificuldade apresentada na escola pode estar relacionada a questões emocionais, relações familiares, bullying ou outras experiências que precisam ser compreendidas em conjunto.
A realidade de Novo Hamburgo - RS mostra como essas necessidades também podem estar relacionadas às condições vividas no território. Adriana Maria Bonadeu, psicóloga da Associação Beneficente Evangélica da Floresta Imperial (ABEFI), relata que conflitos, perdas, violência, dificuldades de convivência e baixa autoestima aparecem entre os desafios enfrentados pelas crianças e adolescentes atendidos pela organização. A enchente que atingiu a região agravou situações de vulnerabilidade que já existiam.
As perdas materiais e afetivas, as mudanças na rotina, a insegurança em relação à moradia, as dificuldades de reconstrução e as lembranças do episódio podem intensificar sentimentos de medo, ansiedade e tristeza. Essas experiências também podem aparecer no comportamento, nas relações com os colegas ou em uma necessidade maior de atenção e acolhimento.
Cuidar da saúde mental em rede exige dividir responsabilidades
Adriele afirma que a proteção de crianças e adolescentes é responsabilidade de todos, mas precisa acontecer de forma compartilhada, “com corresponsabilidade e, principalmente, com afeto”. Na prática, esse caminho encontra uma demanda maior do que a oferta de serviços, principalmente de atendimento psicológico para o público em situação de vulnerabilidade social, além das filas de espera.
Nesse cenário, a articulação entre os diferentes serviços se torna parte do próprio cuidado. Cada serviço da rede de atendimento precisa reconhecer os limites de sua atuação, compreender quais demandas pode acompanhar e identificar quando é necessário envolver outros profissionais ou encaminhar a situação para outro serviço. No Educandário, Adriele conta que alguns encaminhamentos chegam como se a responsabilidade pelo caso pudesse ser transferida para a organização.
“Precisamos, então, construir um processo de corresponsabilização, deixando claro o papel de cada serviço”, diz.
A família também não deve ser responsabilizada isoladamente pela busca de uma solução, principalmente quando existem barreiras sociais e institucionais para chegar ao atendimento. O atendimento psicológico individual é uma das possibilidades de acompanhamento, mas não é a única forma de cuidado. Muitas famílias chegam ao Educandário procurando exclusivamente esse tipo de atendimento, sem conhecer o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Por isso, a equipe realiza grupos com famílias a cada 15 dias e atendimentos individuais quando necessário, além de orientar e acompanhar os responsáveis durante o processo de proteção.
Esse trabalho também pode acontecer por meio de atividades coletivas e do acompanhamento cotidiano. Na ABEFI, educadores e profissionais da assistência social e da psicologia realizam oficinas, rodas de conversa e outras atividades em que a convivência permite perceber situações que precisam de maior atenção. Quando necessário, a equipe conversa com a família, realiza encaminhamentos e articula o atendimento com a rede de proteção. Os responsáveis também participam de conversas e orientações voltadas à comunicação com os filhos.
Uma rede para que a criança não precise enfrentar tudo sozinha
O acompanhamento contínuo pode produzir mudanças que aparecem tanto na maneira como crianças e adolescentes se relacionam quanto na disposição para procurar ajuda. Segundo as profissionais, entre os resultados percebidos estão maior facilidade para expressar sentimentos, melhora na convivência com os colegas e maior procura por adultos de referência diante de dificuldades.
Adriana conta que alguns participantes passaram a procurar a equipe por conta própria depois de uma perda, de conflitos em casa ou de situações relacionadas à enchente. A procura espontânea mostra como a convivência cotidiana pode criar vínculos que ajudam crianças e adolescentes a reconhecer os adultos e os serviços aos quais podem recorrer quando alguma coisa não vai bem.
Essas mudanças ajudam a mostrar que a construção de vínculos não acontece somente quando surge uma situação de crise. A convivência cotidiana cria oportunidades para que crianças e adolescentes reconheçam os adultos e os serviços aos quais podem recorrer quando alguma coisa não vai bem.
Dentro de casa, essa convivência também pode contribuir para a proteção contra situações de violência. A recomendação é criar momentos de conversa ao longo do dia, observar como a criança volta da escola e perguntar sobre o que aconteceu, incluindo aquilo de que mais gostou, o que menos gostou e se alguém fez algo que a magoou ou machucou. Quando a criança se sente ouvida com sinceridade, tende a ter mais segurança para relatar situações de violência ou abuso.
Brincar, ler juntos e passar tempo em praças, parques e outros espaços ao ar livre são formas de criar momentos de convivência. O uso excessivo de telas e jogos on-line merece atenção, especialmente diante das orientações sobre os limites de exposição de acordo com a faixa etária.
A proteção depende de uma rede que consiga continuar o cuidado
Quando uma criança ou um adolescente apresenta uma necessidade que exige atenção, a existência de um adulto disponível é importante, mas não resolve sozinha uma situação complexa. É preciso que a família tenha onde buscar orientação, que a escola consiga compartilhar informações relevantes, que organizações e serviços saibam quando encaminhar e que a rede tenha condições de receber essas demandas.
As desigualdades de acesso também interferem na continuidade do cuidado. Para famílias em situação de vulnerabilidade social, filas de espera e falta de profissionais especializados podem dificultar o acompanhamento, enquanto crianças e adolescentes neurodivergentes podem enfrentar ainda outras barreiras, como preconceito, falta de acessibilidade e dificuldade para encontrar atendimento adequado. Falar em saúde mental, portanto, também significa discutir as condições existentes para que o cuidado aconteça e para que crianças, adolescentes e suas famílias consigam encontrar apoio quando necessário.
A Fundação Abrinq apoia, por meio do Programa Nossas Crianças, o Educandário Deus e a Natureza e a ABEFI, que juntos acompanham 225 crianças e adolescentes em Indaiatuba e em Novo Hamburgo. As experiências das duas organizações mostram que promover saúde mental envolve criar vínculos, acompanhar as necessidades de cada criança e adolescente e construir, com as famílias, escolas e demais serviços, caminhos para que o cuidado tenha continuidade.
Falar sobre saúde mental no Setembro Amarelo amplia a atenção para o tema, mas a proteção de crianças e adolescentes depende de condições para que o cuidado continue durante todo o ano. Quando família, escola, organizações e serviços conseguem compartilhar responsabilidades, a resposta deixa de depender de uma única pessoa e passa a considerar as diferentes dimensões da vida de cada criança e adolescente.
Para ajudar a manter e ampliar iniciativas como essas, conheça o trabalho da Fundação Abrinq, acompanhe seus projetos e programas e seja um doador.