
A amamentação exclusiva até os seis meses de vida é uma das práticas mais recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde no Brasil. Durante esse período, o bebê deve receber apenas o leite materno, sem a oferta de água, chás, sucos ou qualquer outro alimento. Trata-se de um gesto natural, mas que carrega um impacto importante para a saúde da criança e para o futuro dela.
Apesar da importância, ainda há barreiras que impedem muitas mães de seguirem essa recomendação. Entre desinformação, dificuldades no processo de amamentação e falta de políticas de apoio, milhões de crianças no mundo não recebem o aleitamento exclusivo. A diferença entre aquelas que têm acesso e as que não têm é expressiva e pode se refletir por toda a vida.
De acordo com Bruna Grazi, enfermeira neonatologista e consultora em aleitamento materno, "os principais desafios que mães encontram para manter a amamentação exclusiva até os seis meses são a dor, as fissuras, a insegurança sobre a produção de leite e, muitas vezes, a falta de apoio da rede familiar e do ambiente de trabalho".
Os benefícios da amamentação exclusiva
O leite humano é um alimento completo, capaz de fornecer todos os nutrientes de que o bebê precisa nos primeiros seis meses de vida. Ele contém proteínas, vitaminas e gorduras na medida certa, além de anticorpos que atuam como uma verdadeira vacina natural contra doenças. Crianças amamentadas exclusivamente têm menos episódios de diarreia, infecções respiratórias e otites, condições que estão entre as principais causas de hospitalização infantil.
Outro aspecto cada vez mais reforçado pela ciência é a relação entre amamentação e desenvolvimento cognitivo. Pesquisas indicam que o leite materno influencia a formação cerebral, favorecendo melhores resultados em testes de aprendizagem e desempenho escolar. Além disso, a amamentação cria um laço afetivo poderoso entre mãe e bebê, proporcionando segurança emocional, o que também é fundamental para o crescimento saudável.
No entanto, alguns mitos ainda rondam a sociedade. De acordo com a especialista, "além do mito do 'leite fraco', o marketing das fórmulas infantis cria a ideia de que elas são equivalentes ou até superiores ao leite materno, o que não é verdade. Muitas mães acabam introduzindo fórmulas sem necessidade, apenas por insegurança. Isso pode atrapalhar a produção de leite e interromper a amamentação exclusiva antes do tempo recomendado".

O que pode acontecer com crianças que não recebem a amamentação exclusiva?
Já as crianças que não recebem o leite materno de forma exclusiva enfrentam mais riscos de complicações. A introdução precoce de fórmulas, sucos ou outros alimentos pode comprometer a imunidade e aumentar a exposição a bactérias e vírus, levando a quadros de diarreia e desnutrição. Esses problemas afetam diretamente o crescimento, já que a ausência de nutrientes específicos do leite materno dificulta o ganho de peso e altura adequados.
Outro impacto relevante está no campo cognitivo. A falta de aleitamento exclusivo pode afetar o desenvolvimento do sistema nervoso e reduzir as possibilidades de desempenho pleno nas fases seguintes da vida escolar. Soma-se a isso o peso financeiro, já que as famílias que não amamentam precisam arcar com custos de fórmulas infantis e, muitas vezes, com tratamentos médicos mais frequentes. Para o sistema de saúde, a consequência é o aumento das demandas e despesas com atendimentos evitáveis.
Um investimento para toda a vida
A diferença entre receber ou não a amamentação exclusiva vai muito além dos seis primeiros meses de vida. Trata-se de um investimento para o futuro, com efeitos de longo prazo na infância, na adolescência e até na vida adulta. Estudos mostram que pessoas que foram amamentadas exclusivamente apresentam menor risco de desenvolver obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão. Ou seja, a prática contribui não apenas para a saúde imediata, mas também para a prevenção de doenças crônicas.
Por isso, a promoção da amamentação não pode ser responsabilidade apenas das mães. É necessário um esforço coletivo que envolve famílias, profissionais de saúde, empregadores e governos. Licenças-maternidade adequadas, locais apropriados para a extração e armazenamento do leite no ambiente de trabalho e campanhas de informação são medidas fundamentais para que mais crianças tenham acesso ao aleitamento materno exclusivo.
Inclusive, no retorno ao trabalho, é importante que a pessoa que amamenta tenha todo o apoio necessário. "A volta ao trabalho pode ser um desafio, pode gerar ansiedade e reduzir o tempo de contato com o bebê, dificultando a manutenção da amamentação exclusiva, mas existem estratégias que ajudam. As principais estratégias são a ordenha e o armazenamento adequado do leite materno, o uso de recipientes seguros para oferecer ao bebê e o apoio do empregador com pausas para amamentar ou extrair o leite durante o expediente. É essencial que as empresas ofereçam uma sala de apoio à amamentação, com ambiente seguro, limpo e adequado tanto para a extração quanto para o armazenamento do leite materno", relata Bruna Grazi.
O compromisso não é só da pessoa que amamenta
Garantir que cada bebê tenha a chance de ser amamentado de forma exclusiva é mais do que uma recomendação médica. É um compromisso ético e social. Quando um país investe em políticas de proteção à amamentação, está investindo também em um futuro mais saudável, com menos desigualdades e mais oportunidades para todas as crianças. O aleitamento materno exclusivo deve ser entendido como um direito da infância, e proteger esse direito significa abrir caminhos para que meninos e meninas cresçam fortes, protegidos e preparados para desenvolver todo o seu potencial.
De acordo com Bruna, "a rede de apoio é fundamental. A família pode ajudar acolhendo, oferecendo descanso, cuidando da casa e evitando palpites que gerem insegurança. O melhor apoio é incentivar a mãe a amamentar e confiar no seu corpo. A rede de apoio pode ajudar acolhendo a mãe, dividindo tarefas, mas também buscando informações corretas e incentivando a procura de profissionais especializados em amamentação. Isso faz toda diferença para que ela se sinta segura e confiante no processo".
A atuação da Fundação Abrinq
Para fortalecer a promoção da saúde e do desenvolvimento infantil, a Fundação Abrinq atua por meio do Programa 1000 Dias, que contempla desde a gestação até os dois primeiros anos de vida da criança. O programa trabalha em duas frentes principais: na primeira, voltada ao cuidado com gestantes, puérperas e bebês até 1 ano de idade, promove ações como oficinas orientativas, capacitação de profissionais e campanhas de conscientização sobre aleitamento materno e vacinação. Já na segunda frente, dedicada ao período de 1 a 2 anos, incentiva práticas de educação alimentar e nutricional nas creches, além de avaliações para identificar e prevenir desvios nutricionais.
"Aumentar as taxas de aleitamento materno é um desafio que exige uma abordagem coletiva. Para que mais crianças tenham acesso ao aleitamento materno exclusivo, a sociedade precisa focar na saúde e educação. As políticas de licença-maternidade e paternidade devem ser mais longas. As empresas precisam oferecer apoio às mães no retorno ao trabalho. É essencial capacitar os profissionais de saúde para que possam dar o suporte correto às mães. Também é preciso mudar a cultura e a sociedade, combatendo a desinformação com campanhas que acabem com mitos e ofereçam uma rede de apoio forte para as mães", finaliza a especialista.