A escola reabre as portas no início do ano letivo com o desafio é garantir que adolescentes permaneçam. No período de transição do 9º ano para o ensino médio, a permanência escolar depende de ações planejadas, escuta e vínculo. Com esse foco, a Fundação Abrinq, por meio do Projeto Construindo Futuros, realizou o Encontro de Acolhimento, entre os dias 27 e 29 de janeiro, em Embu das Artes, na Escola Estadual Madre Odette de Souza Carvalho, integrante do Programa de Ensino Integral.
Durante três dias, a unidade recebeu estudantes acolhedores, gestores e equipes pedagógicas de escolas da Unidade Regional de Ensino de Taboão da Serra. A proposta foi acolher para garantir permanência. A escola foi apresentada como espaço de cuidado, pertencimento e construção de trajetórias. O acolhimento no 9º ano aparece como caminho para enfrentar a evasão escolar em territórios com altos índices de vulnerabilidade social.
A transição para o ensino médio é um ponto sensível da trajetória escolar. É nesse período que muitos estudantes se afastam da escola por motivos diversos, como a necessidade de ingresso precoce no mercado de trabalho, gravidez na adolescência, dificuldades de aprendizagem acumuladas e contextos familiares instáveis. Quando a escola não consegue se apresentar como espaço de escuta e referência, o rompimento tende a acontecer de forma gradual.
Para Juliana Cristina Garcia Schirrmann, coordenadora geral da Unidade Regional de Ensino de Taboão da Serra, a Fundação Abrinq, por meio do Projeto Construindo Futuros atua diretamente na permanência escolar. Ao acompanhar a ação de perto, ela afirmou que o foco está em garantir que o estudante permaneça na escola. “A escola precisa ser vista como um caminho para a construção do projeto de vida de cada aluno”, afirmou.
Juliana também apontou que muitos estudantes da região vivem contextos de vulnerabilidade que afetam a capacidade de projetar o futuro. Para ela, o engajamento de gestores e professores interfere na forma como o estudante se relaciona com a escola. “Quando o profissional acredita no estudante, o vínculo se fortalece”, disse.

A escola como espaço de vínculo e projeto de vida
A Fundação Abrinq reconhece que a permanência escolar é resultado de vínculos construídos, de relações de confiança e da capacidade da instituição escolar de oferecer sentido ao percurso formativo. O projeto tem como objetivo promover o desenvolvimento dos projetos de vida dos estudantes do 9º ano, subsidiando a escolha dos itinerários formativos na transição para o ensino médio e contribuindo para a redução da evasão escolar.
A iniciativa do Projeto Construindo Futuros atende estudantes entre 14 e 15 anos e envolve professores do componente curricular Projeto de Vida, vice-diretores e equipes pedagógicas das escolas e diretorias de ensino participantes. Em 2025, o projeto ofereceu apoio técnico e formativo às escolas públicas, com práticas alinhadas à Base Nacional Comum Curricular, com foco na Competência Geral 6, Trabalho e Projeto de Vida.
As ações contemplaram formações presenciais e on-line, doação de acervos pedagógicos, saídas culturais, apoio às culminâncias das eletivas, atividades de acolhimento escolar e eventos educativos. Ao todo, o projeto alcançou 47 escolas localizadas nos municípios de Taboão da Serra, Embu das Artes e São Paulo.
O encontro reuniu escolas da Unidade Regional de Ensino de Taboão da Serra, entre elas as Escolas Estaduais Antônio Inácio Maciel, Domingos Mignoni, Gilberto Freyre, Jornalista Wandyck Freitas, José Roberto Pacheco, Maria Catharina Comino, Professor Fernando Milano, Professor Francisco Vicente Lopes Gonçalves, Professor João Caly, Professora Julieta Caldas Ferraz, Professora Maria Aparecida Nigro Gava, Reverendo Denoel Nicodemos Eller, Alexandrina Bassith, Doutor Carlos Koch, Doutor Eduardo Vaz, Engenheiro Paulo Chagas Nogueira, General Ruben Carlos Ludwig, Joanna Spósito, Madre Odette de Souza Carvalho, Marechal Henrique Teixeira Lott, Professor Ede Wilson Gonzaga, Professor Henrique Costa, Professor João Luiz de Oliveira, Professor Nelson Antonio do Nascimento Junior, Amélia dos Anjos de Oliveira, Professora Eulália Malta, Professora Marlene Aparecida Maia Olberg, Professora Mirna Elisa Bonazzi, Professora Sara Sanches Russo, Rodolfo José da Costa e Silva e Solano Trindade.
A programação dos três dias foi organizada a partir dos princípios do Programa de Ensino Integral (PEI), como pedagogia da presença, desenvolvimento socioemocional, protagonismo juvenil e projeto de vida. As atividades buscaram estimular reflexão, escuta e troca entre estudantes e gestores.
As manhãs começaram com dinâmicas de apresentação e autoconhecimento. Na atividade Quem sou eu, os estudantes responderam a perguntas que exigiam reflexão sobre autoconhecimento, identidade, trajetórias e expectativas. As respostas orientaram conversas em grupo e aproximaram os participantes.
Na sequência, a segunda atividade foi dividida em dois grupos. Um deles reuniu vice-diretores, convidados a refletir sobre a escola como ponte. A conversa abordou o papel da escola no que precisa ser provocado, produzido e sustentado no cotidiano, tendo como base os quatro pilares da educação: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a conhecer.
Enquanto isso, os adolescentes participaram de atividades voltadas ao protagonismo. Organizados em grupos, prepararam apresentações para acolher colegas e equipes escolares, reconhecendo o papel coletivo da escola em suas trajetórias. Ao final, houve um momento de partilha das percepções do dia, fortalecendo a escuta mútua. Uma dinâmica com os vice-diretores promivida pelos estudantes trouxe questões sobre infância, memória, escolhas e futuro. Perguntas como como era sua família quando você era criança, você mudaria algo no seu passado, qual memória gostaria de reviver, que frase marcou sua vida e qual conselho daria a um aluno abriram espaço para relatos pessoais. A troca aproximou gestores e estudantes e colocou experiências de vida no centro da conversa.
Entre os educadores, Maíra Santos Moraes, vice-diretora da Escola Estadual Engenheiro Paulo Chagas Nogueira, avaliou que o Projeto Construindo Futuros contribuiu consideravelmente para o trabalho com o Projeto de Vida dos alunos. Ela citou as formações, os materiais pedagógicos e as atividades propostas como apoio ao cotidiano escolar. Ao falar sobre a saída cultural realizada pelo projeto, destacou que a experiência ampliou referências dos alunos. “Alguns nunca tinham saído do bairro”, relatou.
Na Escola Estadual Maria Aparecida Nigro Gava, a vice-diretora Aracari de Mei Geraldi reforçou que o projeto dialoga com a essência do Programa de Ensino Integral. Para ela, quando o estudante compreende o projeto de vida como eixo do percurso escolar, o engajamento se fortalece. “O aluno projeta o futuro e entende que existe um processo de aprendizagem a ser cumprido para chegar lá”, explicou.

O protagonismo juvenil como caminho para enfrentar a evasão escolar
O protagonismo juvenil ganhou centralidade no encontro a partir da escuta dos próprios estudantes acolhedores. Ruan dos Santos, da Escola Estadual Engenheiro Paulo Chagas Nogueira, destacou que o projeto contribuiu para aproximar alunos e escola. Segundo ele, o acolhimento realizado por ele e seus colegas estudantes facilita a adaptação de quem chega. “Quando o acolhedor é aluno, a aproximação acontece de forma natural. A escola passa a ser vista como espaço de apoio”, afirmou. Júlia Cristina, da Escola Estadual Joanna Spósito, relacionou o acolhimento à construção do diálogo e do respeito no ambiente escolar. Ela relatou que, com a presença dos acolhedores, as relações mudaram. “Quando a gente vê o outro fazendo o que é certo, a gente tende a seguir”, disse. Para ela, a escola não é apenas lugar de estudo, mas de convivência. Ao falar sobre sua própria trajetória, contou que o acolhimento contribuiu para desenvolver a comunicação, algo que considera fundamental para o seu futuro profissional, já que almeja ser advogada e precisa falar bem.
Arthur Ribeiro, da Escola Estadual Professora Maria Aparecida Nigro Gava, comparou o papel do acolhedor ao cuidado. Para ele, acolher é orientar, apresentar a escola, apoiar quem chega e lembrar que ninguém está sozinho. Arthur também relatou que o processo contribuiu para enfrentar a timidez e ampliar a capacidade de diálogo, tanto com colegas quanto com a equipe escolar. Miguel Rodrigues da Costa, estudante do PEI Mosc, afirmou que o projeto superou expectativas. Para ele, as atividades mostraram que acolher é prática diária, especialmente nos primeiros dias de aula. O diálogo, segundo ele, ajuda a criar vínculos mesmo entre alunos que já se conhecem.

A percepção de que o projeto fortalece também os profissionais foi destacada por Eliza Hirai, vice-diretora da Escola Estadual Joanna Spósito. Para ela, o Construindo Futuros soma ao trabalho cotidiano ao tratar do sonho de crianças e adolescentes de forma estruturada. Ela ressaltou que as formações contribuíram para iniciar o ano letivo com alinhamento e sentido. “A gente faz acolhimento todos os dias, mas ser acolhido também fortalece o trabalho”, afirmou. Entre os estudantes, Yasmim Queiroz, da Escola Estadual Doutor Carlos Koch, destacou que o projeto ampliou a compreensão sobre acolhimento dentro e fora da escola. Segundo ela, as dinâmicas favoreceram o conhecimento entre os colegas e reforçaram a importância de estar atento ao outro em todos os espaços.
O encerramento do encontro reforçou a ideia de que educação é espaço de futuro. Não apenas de conteúdos, mas de construção de trajetórias possíveis. Ao apostar no acolhimento como estratégia educativa, a Fundação Abrinq, por meio do Projeto Construindo Futuros evidencia que permanecer na escola é resultado de relações construídas com intencionalidade, escuta e presença. Em territórios marcados por desafios sociais, acolher é criar condições para que adolescentes sigam, aprendam e projetem o próprio caminho.